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sábado, 15 de outubro de 2011

Princípe Livre Pássaro



VOCAÇÃO DE POETA

Ainda outro dia, na sonolência
De escuras árvores, eu sozinho,
Ouvi batendo, como em cadência,
Um tique, um taque, bem de mansinho ...
Fiquei zangado, fechei a cara -
Mas afinal me deixei levar
E igual a um poeta, que nem repara,
Em tique-taque me ouvi falar.

E vendo o verso cair, cadente,
Sílabas, upa, saltando fora,
Tive que rir, rir, de repente,
E ri por um bom quarto de hora.
Tu, um poeta? Tu, um poeta?
Tua cabeça está assim tão mal?
- "Sim, meu senhor, sois um poeta",
E dá de ombros o pica-pau.

Por quem espero aqui nesta moita?
A quem espreito como um ladrão?
Um dito? Imagem? Mas, psiu! Afoita
Salta à garupa rima e refrão.
Algo rasteja? Ou pula? Já o espeta
Em verso o poeta, justo e por igual.
- “Sim, meu senhor, sois um poeta”,
E dá de ombros o pica-pau.

Rimas, penso eu, serão como dardos?
Que rebuliços, saltos e sustos,
Se o dardo agudo vai acertar dos
Pobres lagartos os pontos justos.
Ai, ele morre à ponta da seta
Ou cambaleia, o ébrio animal!
- “Sim, meu senhor, sois um poeta”,
E dá de ombros o pica-pau.

Vesgo versinho, tão apressado,
Bêbada corre cada palavrinha!
Até que tudo, tiquetaqueado,
Caia na corrente, linha após linha.
Existe laia tão cruel e abjeta
Que isto ainda – alegra? O poeta – é mau?
- “Sim, meu senhor, sois um poeta”,
E dá de ombros o pica-pau.


Tu zombas, ave? Queres brincar?
Se está tão mal minha cabeça,
Meu coração pior há de estar?
Ai de ti, que minha raiva cresça! –
Mas trança rimas, sempre – o poeta,
Na raiva mesmo sempre certo e mau.
- “Sim, meu senhor, sois um poeta”,
E dá de ombros o pica-pau.

Friedrich Nietzsche
(Das canções do Princípe Livrepássaro, poemas de 1882-1884, publicados em apêndice à Gaia Ciência, na edição de 1886)



Imagem de Nise da Silveira com seu animal de estimação. Fonte: garimpada na internet