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O Espelho da Alma e a Caixa de Pandora: O Mistério da Sala dos Desejos em "Stalker"
Escrito Por Jacques Jacomini
No vasto e contemplativo universo cinematográfico do diretor soviético Andrei Tarkovsky, a busca pelo absoluto nunca se dá por caminhos lineares. Se em O Espelho (1975) o cineasta utilizou a maleabilidade do tempo e da memória para projetar as fraturas da alma humana, foi em Stalker (1979) que ele materializou o maior enigma de sua carreira: a Zona e, no coração dela, a Sala dos Desejos. Espaço místico capaz de realizar a aspiração mais íntima de quem nele adentrar, a Sala evoca um dos mais antigos mitos da humanidade.
Ela funciona como uma Caixa de Pandora invertida, um limiar onde o maior perigo não é o desconhecido alienígena, mas a confrontação inevitável com a verdade nua do próprio ego.A Proibição e a Tentação do Absoluto. O paralelo entre o clímax de Stalker e o mito grego de Pandora estabelece-se, primeiramente, pela dinâmica da proibição.
Assim como Zeus entrega o jarro a Pandora sob a condição estrita de jamais abri-lo — transformando a interdição no combustível ideal para a obsessão —, o governo totalitário de Stalker cerca a Zona com arame farpado, tanques e metralhadoras. O isolamento geográfico apenas santifica o espaço proibido.
Para o homem comum, a Sala torna-se o único repositório de milagres em um mundo cinzento, industrializado e desprovido de fé.No entanto, a genialidade da transposição mítica de Tarkovsky reside na inversão do medo.
No mito clássico, Pandora abre a caixa movida por uma curiosidade ingênua, liberando as mazelas e tragédias sobre a Terra. Em Stalker, os viajantes — o Escritor e o Professor — hesitam diante do limiar exatamente porque compreendem a gravidade do que está guardado dentro daquela "caixa" psicológica.
Essa recusa em transformar a Zona em uma metáfora rasa ou em um espetáculo de efeitos visuais é explicada pelo próprio diretor em sua obra teórica Esculpir o Tempo:
"A Zona é a Zona, é a vida, e o homem, ao atravessá-la, ou se quebra ou se aguenta. Se ele resiste, depende do seu sentimento de dignidade própria, da sua capacidade de distinguir o essencial do que é passageiro." (TARKOVSKY, 2010, p. 223).
O Inconsciente como Monstro: A Recusa do Limiar
A Sala dos Desejos desmascara a hipocrisia humana porque ela ignora o discurso consciente. Ela não realiza o que o homem diz que quer, mas sim o seu desejo inconsciente mais profundo e, frequentemente, mais terrível.
A tragédia de Porco-Espinho, o mentor do Stalker que entrou na Sala para salvar o irmão mas saiu de lá imensamente rico, serve como o grande alerta pedagógico da narrativa. O inconsciente humano abriga monstros de egoísmo, vaidade e ganância que a civilidade tenta recalcar.
Diante da porta da Sala, a arquitetura do vazio — dunas de areia úmida sob um teto onde chove perpetuamente — funciona como um espelho límpido. O Escritor percebe que, se tiver seu desejo de genialidade realizado, sua arte não será mais sua, mas um subproduto da Zona; ele teme a mediocridade de sua própria alma.
O Professor, que carrega uma bomba para obliterar o local e evitar que tiranos o usem para destruir a humanidade, percebe que o verdadeiro perigo não é a Sala, mas o que os homens projetam nela.Ao optarem por não cruzar o portal, ambos os intelectuais decidem manter a "tampa fechada". Eles recusam o autoconhecimento absoluto porque sabem que a verdade sobre si mesmos pode ser insuportável.
A Paisagem Sonora e a Esperança no Fundo do Pote
Na mitologia grega, quando Pandora consegue apressadamente fechar a caixa, a única coisa que resta presa no fundo é Elpis — a Esperança. Em Stalker, a manutenção da tampa fechada é o que preserva a santidade da vida. Se o Escritor ou o Professor tivessem entrado e descoberto que a Sala era uma fraude, ou se tivessem revelado desejos mesquinhos, a última fagulha de transcendência do mundo morreria ali.
Ao deixarem a Sala intocada, eles salvam a esperança. O mistério permanece vivo porque não foi corrompido pelo toque ou pela posse humana.Essa transição espiritual é amparada por uma sinfonia de ruídos naturais (chuva, passos na lama, o vento) processados eletronicamente.
Tarkovsky rejeitava a música ilustrativa no cinema, preferindo que os próprios elementos da natureza operassem a catarse poética do espectador. Em suas próprias palavras:
"O som do mundo real, se escutado com atenção, é tão expressivo que, se formos capazes de organizá-lo com precisão no filme, a música simplesmente não será necessária. O mundo exterior tem sua própria música." (TARKOVSKY, 2010, p. 182).
É essa mesma música sutil e essa esperança sobrevivente que Tarkovsky desloca de forma brilhante na icônica cena final do longa. O Stalker retorna para seu lar em ruínas, imerso em uma profunda crise de fé, chorando a descrença dos homens. Contudo, a câmera se volta para sua filha, Martyna, uma criança que carrega no corpo as mutações físicas decorrentes das incursões do pai à Zona.
Sentada à mesa, enquanto recita um poema de amor e o som ensurdecedor de um trem sacode as paredes da casa, a menina move copos de vidro puramente com a força do pensamento.
A revelação final de Tarkovsky é um soco poético: o Stalker passou a vida inteira arriscando-se no extraordinário proibido da Zona, buscando Deus em uma sala vazia, sem perceber que o milagre, a magia e a transcendência já habitavam a intimidade de sua própria casa. A pureza inocente da criança manifesta a força da Zona sem a necessidade de barganhas ou petições.
Assim como o cinema de Tarkovsky — que se recusa a entregar respostas fáceis e funciona como uma tela vazia onde o espectador projeta suas próprias angústias —, a Sala dos Desejos e a Caixa de Pandora nos ensinam que o sagrado não deve ser desvelado ou destruído. Ele deve ser reverenciado à distância, pois é no silêncio do mistério que reside a nossa última chance de salvação.
Referências Bibliográficas
TARKOVSKY, Andrei. Esculpir o tempo. Tradução de Humphrey de Almeida Tozini. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2010;
STALKER. Direção: Andrei Tarkovsky. Roteiro: Arkady Strugatsky e Boris Strugatsky. União Soviética: Mosfilm, 1979. 1 DVD (161 min).
O Zoológico Municipal de Canoas devolveu duas corujas-suindara (tyto furcata), conhecidas como corujas das torres, à natureza, na Fazenda Guajuviras. As aves chegaram ainda filhotes no MiniZoo, passaram por avaliação médica e, após o processo de reabilitação, que envolveu um manejo todo especial, retornaram à natureza. Entre os cuidados, as equipes recriaram condições do animal na natureza, desde técnicas de alimentação, caça e até treinamento de voo.
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Animais silvestres são protegidos por lei e maltratá-los é crime. Segundo a Lei de Crimes Ambientais 9.605/98, Artigo 28: Matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, ou em desacordo com a obtida.
Em casos como este, contate a equipe do Zoológico Municipal de Canoas para mais orientações através do fone/whatsapp: (51) 99787 – 1078. Para denúncias de maus-tratos de animais silvestres ligue para Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SMMA): (51) 3236-1800.
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A Tinta e o Tempo
Escrever é erguer um farol contra o naufrágio dos dias. Não registramos a vida apenas pelo capricho das palavras, mas pelo pavor sagrado do esquecimento. Cada folha solta, cada rascunho esquecido em uma gaveta, é um fragmento da nossa alma que se recusa a morrer no silêncio. Se a memória é um tecido frágil que o tempo teima em roer, a escrita é a linha que nos costura à eternidade. O relato que se segue nasceu de um vislumbre noturno, um aviso silencioso de que somos feitos das histórias que guardamos. E que, se não cuidarmos das nossas próprias páginas, o tempo — feito cupim invisível — transformará nossa existência em pó e mistério. É preciso escrever para respirar. É preciso registrar para continuar sendo.