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“Estou convencido de que meu primeiro contato com a música, o canto, o conto e a mitologia se processou através da primeira cantiga de acalanto que me entrou pelos ouvidos, sem fazer sentido em meu cérebro, é óbvio, pois a princípio aquele conjunto ritmado de sons não passava dum narcótico para me induzir ao sono. Essa canção falava do Bixo Tutu, que estava no telhado e que desceria para pegar o menino se este ainda não estivesse dormindo. Mas se ele já estivesse piscando, com a areia do sono nos olhos, a letra da cantilena era diferente: uma advertência ao Bicho Tutu para que não ousasse descer do telhado, pois nesse caso o pai do menino mandaria matá-lo. E aí temos sem dúvida uma efabulação ou estória, uma melodia e um elemento mitológico. Amas e criadas encarregaram-se de enriquecer a galeria mitológica da criança, contando-lhe estórias fantásticas, de caráter francamente sadomasoquista, como aquela da madrasta que mandou enterrar vivas as três enteadas. (Ouço uma voz remota exlamar: xô, xô, passarinho!...). Dessa História das meninas enterradas – carpinteiro de meu pai / não me cortes os cabelos / minha mãe me penteou / minha madrasta me enterrou ... – guardo mais o terror que ela me inspirou do que seu enredo. Por essa época a criança já caminhava, e a fita magnética de sua memória estava ainda praticamente virgem, pronta para registrar as impressões do mundo com suas pessoas, animais, coisas e mistérios”.
Transcrição literal de trecho de obra literária.
Extraído de “As Memórias de Érico Veríssimo”.
In. O que é leitura.
Autora: Maria Helena Martins
Coleção Primeiros Passos. Número Setenta e Quatro.
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