A Cidade de Santa Isabel.
"São Paulo dá café, minas dá leite e a Vila Isabel dá samba" Noel Rosa
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
Eu sabia, e tu sabias?: Houve Um Tempo
Carlos Drummond de Andrade (a flor de samambaia)
Aos Santos de Junho
Meu santo Santo Antônio de Lisboa,
repara em quanto coração aflito,
a padecer milhões por coisa à toa.
Por que não baixas, please, do infinito?
O mundo é o mesmo após aquela tarde
em que, à falta de gente, por encanto,
falaste aos peixes, e eles, sem alarde,
meditavam em roda de teu manto.
Não sabemos, Antônio, o que queremos,
nem sabemos querer, porém confiamos
de teu amor nos cândidos extremos
e nessa fiúza todos continuamos.
Se não sorris a nosso petitório,
acudindo ao que houver de mais urgente,
se, em vez do café, levas o tório,
como pode o pessoal ficar contente?
Alferes, capitão de soldo largo,
tua civilidade nos proteja.
Não nos deixes papar arroz amargo,
e os brotos (de grinalda?) leva à igreja.
Olha as coisas perdidas, Antoninho:
vergonha, isqueiro, tempo… Se encontrares
um coração jogado no caminho,
traze-o de volta ao dono, pelos ares.
E tu, senhor São João, que vens chegando
ao estrondo de bombas (de hidrogênio?),
salve! mas, por favor, dize: até quando
o jeito é ensurdecer: por um milênio?
Sei que não és culpado, meu querido.
Amas o fogo, a sorte, a clara de ovo,
a flor de samambaia e seu sentido
mágico, à meia-noite, para o povo.
E o manjerico verde, casamento
com rapaz; ou, senão, murcho, com velho.
Responde, João: em julho vem aumento?
(Bem sei que o assunto foge ao Evangelho.)
Mas dançaremos todos por lembrar-te,
e pulando, sem pânico, a fogueira,
pobres clientes do câncer e do enfarte,
ao clarão de outra chama verdadeira
que arde em nós, não se extingue e nos consola,
ó João Batista degolado e suave,
bendiremos a graça de teu nome,
e na funda bacia a alma se lave.
Não importa, se ardemos: esta brasa,
como o petróleo, é nossa. Mas, bondoso
e friorento São João: ao cego, em Gaza,
dá-lhe em sonho um balcão, para seu gozo.
E tu, ó Pedro astuto e rude, rocha
no caminho do incréu, baixa e descansa,
contando-nos teus contos de carocha,
os mesmos em Caeté como na França.
Tens as chaves do céu ou do Tesouro?
Aqui a turma — é pena — se interessa
bem mais pela segunda — tanto ouro
nas almas se perdendo… A vida é essa.
E o mais que se dissipa em schiaparellis,
balenciagas, espécies superfinas
(que não sei como pôr os erres e eles),
em peles balzaquianas e meninas.
Pedro-piloto-barca: a teu prestígio,
da vida este canhestro e mau aluno,
evitando de longe o curso estígio,
ganha a sabedoria de Unamuno.
No alto não me recebes, mas à porta,
os coros inefáveis surpreendendo,
cultivarei as minhas flores de horta:
a saudade do céu é um dividendo.
Antônio, Pedro, João: aos três oferto
esta saudade em nós, sem testemunho:
pois, se o homem rasteja em rumo incerto,
balões sobem ao céu, no mês de junho.
17/06/1956
terça-feira, 6 de janeiro de 2026
verborragia
A Santa Isabel é boa
domingo, 21 de dezembro de 2025
Antônio Flávio Pierucci
22/06/2012
Morreu em SP, aos 67, sociólogo Flávio Pierucci
Professor da USP estudou mudanças no cenário religioso do país, com ascensão das denominações neopentecostais
- Autor de livros como 'O Desencantamento do Mundo', pesquisador ajudou a criar método do Datafolha nos anos 1980

O sociólogo Flávio Pierucci durante entrevista no Cebrap, em SP
Jorge Araújo 31.ago.2001/Folhapress
O professor da USP e sociólogo Antônio Flávio Pierucci morreu ontem pela manhã, em São Paulo, aos 67 anos, em decorrência de um infarto fulminante.
O acadêmico tinha diabetes leve e pressão alta, ambas controladas com medicação. Por volta das 10h de ontem, uma equipe do Samu chegou à residência do pesquisador, na Vila Mariana (zona sul), para tentar reanimá-lo, mas não obteve sucesso.
O corpo de Pierucci será enterrado hoje, no Cemitério Municipal de Altinópolis, cidade do Norte paulista (a cerca de 330 km da capital) em que ele nasceu. O professor não deixa filhos.
Três objetos de estudo se destacaram na trajetória do sociólogo: a produção teórica do alemão Max Weber (1864-1920), o perfil do voto conservador em SP e o enfraquecimento do catolicismo, este último coincidindo com a ascensão das denominações neopentecostais.
No âmbito da pesquisa weberiana, publicou em 2003 "O Desencantamento do Mundo - Todos os Passos do Conceito de Max Weber" (editora 34), volume originado de sua tese de livre-docência na USP.
Na obra, Pierucci esmiúça a noção do título, segundo a qual a história do Ocidente testemunhou um lento processo de afastamento da religião de práticas e rituais místicos, mágicos.
No ano seguinte, o sociólogo, que integrou os quadros do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e foi secretário-geral da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), cuidaria da edição de "A Ética Protestante e o 'Espírito' do Capitalismo" (Cia. das Letras), obra-chave de Weber.
Segundo Reginaldo Prandi, professor de sociologia da USP e orientador da tese de doutorado de Pierucci, ele concluíra há pouco a revisão técnica de mais dois títulos weberianos, sobre as religiões da China e da Índia.
IMAGEM EVANGÉLICA
No campo da sociologia da religião, explica Prandi, o sociólogo vinha se dedicando à análise das estratégias dos evangélicos pentecostais para ingressar na mídia e mudar a imagem de suas denominações. Ele também se debruçava sobre as manifestações musicais desses grupos.
Além de "O Desencantamento do Mundo", o acadêmico publicou a coletânea de ensaios "Ciladas da Diferença" (editora 34; 1999) e o livro "A Magia" (Publifolha; 2001).
No começo dos anos 1980, ao lado de Prandi e Antonio Manuel Teixeira Mendes, atual superintendente da Folha, Pierucci desenvolveu uma metodologia para o Datafolha (o então recém-criado instituto de pesquisas do Grupo Folha) que cruzava dados geográficos, de renda e sociais.
"Ele ajudou a entender os mecanismos que regem a decisão do eleitor, em um momento em que ainda havia poucos estudos a esse respeito. Radiografou o malufismo em São Paulo, por exemplo", diz Mendes.
Em mensagem enviada por e-mail, o sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso lamentou a morte do colega. "Convivi extensamente com ele no Cebrap. Destacou-se sempre como pesquisador competente e intérprete refinado."
Livros / Antônio F. Pierucci
Igreja: contradições e acomodação
1978. Editora Brasiliense
Um estudo das concepções do clero católico sobre a reprodução humana e o problema do aborto
São Paulo: trabalhar e viver
Com Vinicius Caldeira Brant
1989. Editoria Brasiliense
Analisa o desenvolvimento econômico e as condições de trabalho, moradia, saúde, a criminalidade e as lutas urbanas na cidade de SP
A realidade social das religiões no Brasil
Com Reginaldo Prandi.
1996. Editora Hucitec
Uma discussão das relações entre as religiões e as transformações da sociedade, sobretudo na esfera política
Ciladas da diferença
1999. Editora 34
Sete ensaios sobre a questão da diferença. Analisa o eleitorado de direita e as classes populares em São Paulo, os movimentos feministas e o fundamentalismo islâmico
A magia
2001. Publifolha
Ensaio sobre o tema a partir dos principais teóricos que estudaram o problema (Frazer, Hubert, Mauss, Durkheim, Malinowski, Leach)
O desencantamento do mundo
2005. Editora 34
Análise de um dos conceitos centrais do pensamento do sociólogo alemão Max Weber
Especialista em Weber, reforçou a identidade cristã do brasileiro
LUIZ FELIPE PONDÉ
COLUNISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO
Antônio Flavio Pierucci foi um ícone dos estudos científicos da religião entre nós.
Estudos esses que ainda carecem de tradição num país que costuma confundir o mundo do "sagrado" com o mundo secular.
Nos seus termos, "sociólogos da religião sem coração" é o que nos falta. Com sua morte ontem, esta falta será ainda maior.
Pierucci era um grande especialista, dentre outros feitos, no crescimento do cristianismo pentecostal brasileiro e na obra do sociólogo Max Weber (1864-1920).
NAÇÃO CRISTÃ
Entre suas inúmeras contribuições, podemos apontar sua análise do crescimento estatístico do pentecostalismo brasileiro, visto pelo sociólogo como "mais do mesmo", na medida em que reforça a identidade cristã do Brasil, ao contrário daqueles que gostam de dizer que somos uma nação de diversidade religiosa.
Mas, se por um lado, permanecemos cristãos como sociedade, no âmbito das denominações cristãs e suas "competências de gestão", este crescimento era visto pelo sociólogo como indicativo da maior competência do clero pentecostal na gestão do mercado da fé cristã do que seu concorrente católico.
Para Pierucci, este fato impunha uma demanda mercadológica à Igreja Católica, antes acostumada à ineficiência pré-capitalista.
MAGIA E RELIGIÃO
No campo de seus estudos weberianos acerca da "desmagificação", mais conhecida como "desencantamento", Pierucci aprofundou o entendimento das diferenças entre as ideias de magia e de religião, que para ele não eram a mesma coisa.
A primeira seria concreta, pragmática e amoral, a segunda, abstrata, metafísica e moralista.
Fonte: jornal FOLHA DE SÃO PAULO
quarta-feira, 6 de agosto de 2025
quinta-feira, 19 de junho de 2025
Título:
A Ética Protestante e o espírito do capitalismo.
Autor:
Max Weber
Edição de Antônio Flávio Pierucci
Editora Companhia das Letras
Tradução de José Marcos Mariani de Macedo
Revisão técnica, edição de texto, apresentação, glossário, correspondência vocabular e índice remissivo de Antônio Flávio Pierucci
Fichamento de Jacques Jacomini
Parte 01
O Problema
1. Confissão religiosa e estratificação social
O autor da obra inicia com dados estatísticos levantados na sua pesquisa, quando diz:
"Basta uma vista de olhos pelas estatísticas ocupacionais de um país pluriconfessional para constatar a notável freqüência N1 de um fenômeno por diversas vezes vivamente discutido na imprensa e na literatura católicas N2 bem como nos congressos católicos da Alemanha: o caráter predominantemente protestante dos proprietários do capital e empresários, assim como das camadas superiores da mão-de-obra qualificada, notadamente do pessoal de mais alta qualificação técnica ou comercial das empresas modernas".
Nota de pé de página número 3
Sem citar dados quantitativos específicos, Weber que demonstrou ao longo da sua existência grande interesse pela economia, história e direito, deixa claro, desde o início da obra a relação entre uma profissão de fé (protestante) e um grupo social específico (os proprietários do capital e empresários).
Segue, no mesmo tom, dando explicações acessórias ao supra citado:
"Está claro que a participação dos protestantes na propriedade do capital N4 na direção e nos postos de trabalho mais elevados das grandes empresas modernas industriais e comerciais, N5 é relativamente mais forte, ou seja, superior à sua porcentagem na população total, e isso se deve em parte a razões históricas N6 que remontam a um passado distante em que a pertença a uma confissão religiosa não aparece como causa de fenômenos econômicos, mas antes, até certo ponto, como conseqüência deles".
Falamos que Weber não se dedica apenas ao conhecimento sociológico, mas também possui interesse histórico e econômico, isso aparece no trecho que segue:
"Mas aí se levanta a questão histórica: qual a razão dessa predisposição particularmente forte das regiões economicamente mais desenvolvidas para uma revolução na Igreja? E aqui a resposta não é assim tão simples como à primeira vista se poderia crer. Com certeza, a emancipação ante o tradicionalismo econômico aparece como um momento excepcionalmente propício à inclinação a duvidar até mesmo da tradição religiosa e a se rebelar contra as autoridades tradicionais em geral. Mas cabe atentar aqui para o que hoje muitas vezes se esquece: a Reforma significou não tanto a eliminação da dominação eclesiática sobre a vida de modo geral, quanto a substituição de sua forma vigente por unia outra. E substituição de uma dominação extremamente cômoda, que na época mal se fazia sentir na prática, quase só formal muitas vezes, por uma regulamentação levada a sério e infinitamente incômoda da conduta de vida como um todo, que penetrava todas as esferas da vida doméstica e pública até os limites do concebível".
Na sequência surge um tema recorrente, a cultura cristã católica na relação com a cultura cristã não católica e os seus desdobramentos históricos e econômicos na Europa:
"A dominação da Igreja católica — 'que pune os hereges, mas é indulgente com os pecadores', no passado mais ainda do que hoje — é suportada no presente até mesmo por povos de fisionomia econômica plenamente moderna [e assim também a agüentaram as regiões mais ricas e economicamente mais desenvolvidas que a terra conhecia na virada do século xv]. A dominação do calvinismo, tal como vigorou no século XVI em Genebra e na Escócia, na virada do século XVI para o século XVII em boa parte dos Países Baixos, no século XVII na Nova Inglaterra e por um tempo na própria Inglaterra, seria para nós a forma simplesmente mais insuportável que poderia haver de controle eclesiástico do indivíduo. [Foi exatamente assim, aliás, que a sentiram amplas camadas do velho patriciado da época, em Genebra tanto quanto na Holanda e na Inglaterra.] Não um excesso, mas uma insuficiência de dominação eclesiástico-religiosa da vida era justamente o que aqueles reformadores, que surgiram nos países economicamente mais desenvolvidos, acharam de criticar".
2. O "espírito" do Capitalismo
Esta parte do texto é uma das principais, pois provoca, via de regra, alguns equívocos nos leitores menos atentos e preparados para a leitura de Weber. No entanto, não há "mistério" algum, basta ficar atento e buscar entender o enfoque que o autor está privilegiando: Cultural.
Desde o início do capítulo, o autor já esclarece:
"No título deste estudo emprega-se o conceito de “espírito do capitalismo”, que soa um pouco pretensioso. O que se deve entender por isso? [Na tentativa de lhe dar uma “definição” ou algo assim, logo se apresentam certas dificuldades que pertencem à natureza do próprio objetivo da pesquisa.] Se é que é possível encontrar um objeto que dê algum sentido ao emprego dessa designação, ele só pode ser uma “individualidade histórica”, isto é, um complexo de conexões que se dão na realidade histórica e que nós encadeamos conceitualmente em um todo, do ponto de vista de sua significação cultural. Tal conceito histórico, entretanto, na medida em que por seu conteúdo está relacionado a um fenômeno significativo em sua peculiaridade individual, não pode ser definido (vale dizer: “delimitado”) segundo o esquema genus proximum, differentia specifica, devendo antes ser gradualmente composto a partir de cada um de seus elementos, extraídos da realidade histórica. Daí por que a apreensão conceitual definitiva não pode se dar no começo da pesquisa, mas sim no final: noutras palavras, somente no decorrer da discussão se vai descobrir, e este será seu principal resultado, como formular da melhor maneira — isto é, da maneira mais adequada aos pontos de vista que nos interessam — o que entendemos aqui por “espírito” do capitalismo. Por outro lado, esses pontos de vista (dos quais tornaremos a falar) não são os únicos possíveis para analisar os fenômenos históricos que estamos considerando. Para esse, como para todo fenômeno histórico, a consideração de outros pontos de vista produziria como “essenciais” outros traços característicos: segue-se daí que não se pode ou não se deve necessariamente entender por “espírito” do capitalismo somente aquilo que nós apontaremos nele como essencial para nossa concepção. Isso faz parte da natureza mesma da “formação de conceitos históricos”, a saber: tendo em vista seus objetivos metodológicos, não tentar enfiar a realidade em conceitos genéricos abstratos, mas antes procurar articulá-la em conexões [genéticas] concretas, sempre e inevitavelmente de colorido especificamente individual".
3. O Conceito de vocação em Lutero
O Objeto da pesquisa
Página em Construção
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